Arte na Pele e Desemprego na Veia
Por Bethânia Machado, Gabriel Belitz, Julia Dias, Julia Miranda, Maynara Mendes e Renata Cipili.
A profissional de marketing, Camila de Souza vivenciou uma situação desagradável enquanto estava passando pelo processo seletivo de uma empresa, em que a empregadora a questionou se ela estaria disposta a se encaixar ao padrão da empresa. "Quando fiz a entrevista, eu tinha uma mecha rosa bem discreta no cabelo, piercings, e algumas tatuagens delicadas e pequenas espalhadas pelo corpo. Ao ver isso, ela questionou se eu aceitaria me adaptar às regras da empresa e tiraria os piercings." Então, por precisar do emprego, Camila decidiu se encaixar "eu desejava muito uma oportunidade na minha área de formação e enxerguei aquele estágio como a minha chance de ingressar no mercado, então acabei aceitando." Essa realidade enfrentada por Camila de Souza é vivenciada por muitos profissionais qualificados, como a publicitária Mônica Moraes, que não foi contratada devido às normas da empresa, "já não passei em vagas de certas empresas porque não podiam pessoas muito tatuadas".
No mercado de trabalho, a tatuagem ainda pode ser uma questão desfavorável para a contratação e a progressão profissional, independentemente de suas habilidades, competências e qualificações. Embora o preconceito relacionado às tatuagens seja mais relacionado a empregos tradicionais, como escritórios de advocacia e empresas corporativas, ele também se manifesta em outras áreas, como educação, saúde e até mesmo na publicidade. Isso ocorre porque, de acordo com uma pesquisa conduzida pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), cerca de 40% das pessoas tatuadas relataram ter sofrido discriminação em processos seletivos ou no ambiente de trabalho devido às suas tatuagens.
Ao longo das últimas décadas, a sociedade tem passado por mudanças significativas em relação à percepção e aceitação das tatuagens. O que antes era considerado marginalizado e associado a grupos específicos, como marinheiros e motociclistas, atualmente se tornou uma forma de expressão artística popular e amplamente difundida. Apesar disso, o preconceito com tatuagens ainda persiste em diversas esferas da sociedade, principalmente no ambiente de trabalho.
Os motivos relacionados ao preconceito com tatuagens no mercado de trabalho são variados. Por isso, alguns empregadores podem associar a presença de tatuagens a estereótipos negativos, como rebeldia, desleixo ou falta de profissionalismo. Além disso, há aqueles que consideram as tatuagens uma distração para clientes ou até mesmo uma afronta aos códigos de vestimenta e etiqueta corporativa. Esse desconforto não se limita ao aspecto físico. Heloisa Nunes, uma advogada tatuada, compartilha sua experiência: "essa situação vai além do aspecto físico, afeta meu bem-estar psicológico e, consequentemente, minha produtividade no trabalho. Embora eu ame o que faço, não consigo sentir a mesma paixão na empresa em que trabalho devido às situações discriminatórias, especialmente quando partem do meu gestor."
Adriana Gazola, coordenadora de recursos humanos, aborda a questão da receptividade de setores empresariais em relação a pessoas tatuadas, destacando que certos setores podem ser mais acolhedores, enquanto outros podem apresentar complicações, especialmente quando há interação com clientes: o representante comercial, por ser o cartão de visitas da empresa, precisa estar bem apresentável e não pode estar com tatuagens visíveis, porque passaria a imagem de que a empresa não era correta.
Confira abaixo a entrevista completa:
O impacto dessa discriminação vai além das questões profissionais. Muitos indivíduos sentem-se pressionados a esconder suas tatuagens para se adequarem às expectativas sociais, o que resulta em conflitos internos entre sua identidade pessoal e a necessidade de se adaptar a um ambiente de trabalho conservador. A advogada Heloisa Nunes conta como a intolerância faz o profissional se analisar, "ao sofrer uma discriminação deste gênero, começamos a se questionar se estamos certos, se seria bom mudar para se encaixar nos moldes do ambiente laboral. No caso da tatuagem cogitei a remoção, mas não fui adiante, entretanto, busco cobri-las melhor desde então, evitar regatas, etc." Essa pressão para ocultar uma parte de si mesmo acaba afetando negativamente o bem-estar emocional, comprometendo a autoestima e a autenticidade dos profissionais. De acordo com Mônica Moraes, "embora as pessoas tatuadas possam parecer mais seguras de si, às vezes o assédio moral pode abalar drasticamente sua autoestima."
Essas narrativas evidenciam claramente o impacto negativo que a discriminação no mercado de trabalho devido a tatuagens pode causar na saúde mental e na satisfação profissional. Camila de Souza ainda relata que ao precisar se adequar aos padrões da empresa, sentiu que perdeu sua originalidade, "tive que passar por uma mudança drástica e acabei perdendo minha essência. Fui obrigada a renovar todo o meu guarda-roupa para que as mangas cobrissem as tatuagens, e em muitos dias quentes de verão, sofri com o desconforto... Tudo isso apenas para atender aos caprichos de uma pessoa conservadora e preconceituosa".
Essas restrições impostas a Camila, e a outros profissionais tatuados que passam por situações semelhantes, afetam não apenas sua liberdade de expressão, mas também sua autoestima e identidade. A necessidade de esconder tatuagens para se adequar a padrões estabelecidos pode gerar um conflito interno, resultando em frustração e desmotivação.
Alguns trabalhadores optam por esconder suas tatuagens utilizando maquiagem ou esparadrapos. Foto: Gabriel Belitz e Julia Miranda.
A publicitária Mônica Moraes acredita que para desconstruir o preconceito no mercado de trabalho por ter tatuagens, é essencial promover a aceitação e valorização da individualidade. "As empresas e organizações podem adotar políticas inclusivas que reconheçam e respeitem a diversidade dos profissionais, independentemente de sua aparência externa. Além disso, é importante incentivar a educação e o diálogo, de modo a sensibilizar os gestores e colaboradores sobre a importância de tratar todos os profissionais de forma igualitária, sem julgamentos baseados em aparência física."
As tatuagens, são uma forma de arte e de demonstrar autenticidade. Portanto, discriminar alguém por sua aparência, incluindo tatuagens, é ignorar um direito fundamental à expressão individual.
No meio jurídico, infelizmente, o preconceito não é incomum. A advogada Bruna Grillo compartilha sua experiência de trabalhar em ambientes onde enfrentou preconceito não apenas por suas tatuagens, mas também por sua forma de se vestir e se comportar. Ela afirma: "Meu chefe conversou comigo que advogados não devem estar acima do peso, não usar roupa espalhafatosa." E ela ainda completa: "Em relação a tatuagens, nunca tive a liberdade total de decidir o que tatuar."
Ouça o podcast a seguir, cujo objetivo é aumentar a conscientização sobre essa questão e promover discussões sobre o tema, abordando a perspectiva jurídica sobre o assunto.
Por isso, é importante refletir sobre a equidade e a justiça dessa visão preconceituosa. Além disso, a sociedade evolui e se torna mais inclusiva a cada dia, com isso, é necessário um questionamento dos estereótipos em relação às tatuagens. Heloísa Nunes sugere um plano de ação para diminuir essas situações, “contar com políticas e diretrizes claras a respeito da discriminação com base na aparência ou outros traços pessoais seria um ótimo plano de ação para tentar reduzir essas atitudes impugnantes. Até cheguei a buscar no Código de Conduta, porém o documento é omisso quanto a esses casos em específico, é algo mais genérico, como guia.”
Camila de Souza relata que esses acontecimentos não se tratam de profissionalismo, apenas preconceito, “minhas tatuagens não atrapalhariam em nada... então nesses casos, não há justificativa para proibição, só o preconceito mesmo.” Muitas empresas têm adotado uma postura mais avançada, entendendo a importância da diversidade e da representatividade no ambiente de trabalho, algumas organizações já revisaram parte de suas políticas, como, por exemplo, a de vestimenta, e adotaram uma abordagem mais flexível em relação às tatuagens, dando valor ao profissional pelo seu desempenho, competência e dedicação, independentemente de sua aparência.
O estigma em relação às pessoas tatuadas pode gerar discriminação e limitar oportunidades profissionais. Por isso, é fundamental destacar a importância de uma cultura corporativa inclusiva, que valorize a diversidade e a individualidade dos colaboradores. Isso porque, as tatuagens, assim como outras características pessoais, não deveriam ser critérios determinantes para contratação ou progressão de carreira.
Para a advogada Heloísa Nunes, a conscientização sobre esse tema é essencial para desconstruir preconceitos arraigados e promover a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. "É preciso quebrar estereótipos e reconhecer que as tatuagens não definem o caráter ou a competência de um profissional. Logo, empresas que adotam políticas mais inclusivas e respeitam a expressão individual dos colaboradores estão mais propensas a colher os benefícios de uma equipe diversificada, que estimula a criatividade, inovação e a colaboração"
É necessário um esforço conjunto, tanto das empresas quanto da sociedade, para combater o preconceito com tatuagens e garantir um ambiente de trabalho mais justo e igualitário. Pois, a valorização da diversidade, o respeito às diferenças e a eliminação de estigmas são passos essenciais para alcançar uma cultura corporativa mais inclusiva e acolhedora. No fim das contas, como a Camila disse: empresas tem várias, mas a sua essência é única. Se acontecer com você, coloque na balança se realmente aquele é o único emprego disponível e se vale a pena perder a sua essência.



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